Há alguns dias me peguei refletindo sobre algo que, quanto mais observo, mais fica difícil ignorar. As relações humanas parecem ser menos sobre as pessoas e cada vez mais sobre o que elas podem oferecer. Não estou falando apenas de dinheiro, favores ou vantagens profissionais. Falo da utilidade em seu sentido mais amplo. Da capacidade de alguém gerar entretenimento, abrir portas, oferecer  algum tipo específico de companhia, conhecimento, influência, validação ou qualquer outro benefício. Passei a perceber que, quando essa utilidade desaparece, muitas relações começam a desaparecer junto com ela.

Essa reflexão surgiu de maneira curiosa. Há tempos penso no famoso livro Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Nunca o li, portanto esta não é uma crítica à obra, até porque, nem tenho gabarito para tal. O título, porém, despertou uma pergunta em minha cabeça: afinal, como as pessoas realmente fazem amizade? Mais do que isso, por que deixam de sê-lo? O que é amizade afinal? Em vez de procurar respostas prontas, comecei simplesmente a observar. Observei conversas, encontros, afastamentos silenciosos e aquela estranha facilidade que temos de deixar pessoas desaparecerem de nossas vidas sem que exista qualquer conflito.

Foi então que percebi que talvez exista uma espécie de algoritmo invisível operando também fora das redes sociais. Quem sabe influenciado por elas.

Quando alguém possui algo que desperta nosso interesse, mantemos essa pessoa por perto. Conversamos, convidamos para sair, respondemos rapidamente às mensagens e cultivamos a proximidade. Mas basta que aquele elemento desapareça para que o relacionamento, muitas vezes, comece a perder força. As mensagens diminuem. Os convites deixam de existir. As conversas tornam-se protocolares. Algumas pessoas desaparecem completamente. Outras permanecem apenas o suficiente para que o vínculo nunca seja totalmente rompido, reaparecendo quando existe alguma conveniência. É o que mais observei.

É claro que sempre existiram relações de interesse. A história da humanidade está cheia delas. O que me parece diferente hoje é que a utilidade deixou de ser apenas um dos componentes das relações e passou a ocupar seu centro. Ela deixou de influenciar os vínculos para definir quais vínculos merecem existir.

Talvez seja justamente aí que esteja a maior transformação dos últimos anos.

Quando penso na internet do início dos anos 2000, lembro de redes como Orkut, dos fóruns, dos fotologs e das comunidades online. Naquela época, as pessoas se encontravam porque compartilhavam um interesse em comum. Gostavam da mesma banda, da mesma série, da mesma profissão, da mesma cidade ou do mesmo hobby, e então criavam-se as comunidades. Depois surgiam as conversas, as amizades e, muitas vezes, relações que ultrapassavam completamente o motivo inicial daquela conexão.

Hoje tenho a impressão de que essa lógica foi invertida.

Não nos aproximamos mais porque temos interesses em comum. Aproximamo-nos porque alguém pode atender aos nossos interesses particulares. Parece uma diferença pequena, mas ela muda completamente a natureza das relações. Antes, o interesse criava afinidade. Hoje, a afinidade muitas vezes é descartável, desde que a utilidade permaneça.

É impossível refletir sobre isso sem pensar nas redes sociais. Em algum momento, seus algoritmos deixaram de mostrar prioritariamente o que nossos amigos publicavam e passaram a entregar aquilo que mais prende nossa atenção. Pouco importa quem produziu o conteúdo. O que importa é que ele mantenha nossos olhos na tela por mais alguns segundos. E isso tem me incomodado de certa forma. Eu tenho que entrar no perfil das pessoas que gosto para ver o que elas publicam, já que o meu feed está repleto de pessoas pelas quais eu não tenho o menor interesse.

Esse detalhe aparentemente técnico talvez tenha produzido uma transformação muito mais profunda do que imaginamos.

Durante anos fomos treinados a consumir apenas aquilo que nos interessa. Aprendemos a deslizar o dedo para ignorar instantaneamente tudo aquilo que não desperta nossa atenção. Passamos a receber exatamente o conteúdo que confirma nossas preferências, reforça nossas opiniões e satisfaz nossos desejos imediatos. Aos poucos, essa lógica deixou de existir apenas dentro dos aplicativos e se tornou regra de vida.

Mantemos por perto quem nos diverte. Quem pode nos ajudar. Quem oferece oportunidades. Quem valida nossas opiniões (a I.A que o diga, afinal, o seu chat concorda ou não com tudo o que você diz?). Damos valor a quem resolve problemas. Quem nos faz sentir importantes. E quando essa utilidade diminui, nosso algoritmo humano silenciosamente reduz o alcance daquela pessoa em nossa vida. Talvez seja por isso que tantas relações pareçam frágeis atualmente.

Tenho a impressão de que desaprendemos a conhecer pessoas. Hoje queremos descobrir rapidamente qual a profissão de alguém, quantos seguidores possui, quais contatos mantém, o que pode oferecer e de que forma pode agregar às nossas vidas. Não porque sejamos necessariamente egoístas, mas porque fomos inseridos em uma cultura que transforma praticamente tudo em valor de troca. E sou capaz de acreditar que fomos treinados por este mesmo algoritmo das atuais redes, por isso, essa lógica não termina quando desligamos o celular.

Basta olhar ao redor. Em restaurantes, praças, ônibus ou salas de espera, pessoas dividem o mesmo espaço físico enquanto habitam universos completamente diferentes. Quase ninguém observa quem está ao lado. Quase ninguém inicia uma conversa. Quase ninguém parece verdadeiramente disponível para conhecer alguém sem um motivo específico. Estamos cercados de pessoas e, ao mesmo tempo, profundamente isolados.

É curioso perceber que nunca tivemos tantas formas de nos conectar e, ainda assim, nunca foi tão difícil construir relações duradouras. Talvez porque conexão e relacionamento tenham deixado de significar a mesma coisa. Conectar-se é simples. Um clique basta. Permanecer exige tempo, interesse genuíno, disposição para ouvir, conviver e continuar presente mesmo quando o outro já não oferece nenhuma vantagem evidente.

Talvez eu esteja completamente errado. Talvez esta seja apenas uma impressão de quem passa tempo demais observando e pensando no comportamento humano. Mas se essa percepção estiver correta, o maior algoritmo da nossa época não é o das redes sociais, e sim o algoritmo humano do interesse.

Antes de esquecer este texto e seguir sua vida automática, observe seu círculo de contatos. Pense nas pessoas com quem você conversa, trabalha, encontra e mantém por perto. Agora faça a si mesmo(a) uma pergunta simples, mas profundamente desconfortável. Quais dessas pessoas permaneceriam ao seu lado se você deixasse de ser útil? Depois responda, com toda honestidade: quais das suas conexões são realmente genuínas? Boa sorte.